Castro Alves - Os Escravos - 22 - O canto de Bug Jargal




Castro Alves - Os Escravos - 22 - O canto de Bug Jargal


escutas?

Ah! sou bem formidável na verdade,

Sei ter amor, ter dores e ter cantos!

Quando, através das palmas dos coqueiros

Tua forma desliza aérea e pura,

Ó Maria, meus olhos se deslumbram,

Julgo ver um espírito que passa.

E se escuto os acentos encantados,

Que em melodia escapam de teus lábios,

Meu coração palpita em meu ouvido

Misturando um queixoso murmurio

De tua voz à lânguida harmonia.

Ai! tua voz é mais doce do que o canto

Das aves que no céu vibram as asas,

E que vem no horizonte lá da pátria.

Da pátria onde era rei, onde era livre!

Rei e livre, Maria! e esqueceria

Tudo por ti... esqueceria tudo

— A família, o dever, reino e vingança

Sim, até a vingança! ... ainda que cedo

Tenha enfim de colher este acre fruto,

Acre e doce que tarde amadurece.


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Ó Maria, pareces a palmeira

Bela, esvelta, embalada pelas auras.

E te miras no olhar de teu amante

Como a palmeira n'água transparente.

Porém ... sabes? Às vezes há no fundo

Do deserto o uragã que tem ciúmes

Da fonte amada... e arroja-se e galopa.

O ar e a areia misturando turvos

Sob o vôo pesado de suas asas.

Num turbilhão de fogo, árvore e fonte

Envolve... e seca a límpida vertente,

Sente a palmeira a um hálito de morte

Crespar-se o verde circ'lo da folhagem,

Que tinha a majestade de uma c'roa

E a graça de uma solta cabeleira.


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Oh! treme, branca filha de Espanhola,

Treme, breve talvez tenhas em torno

O uragã e o deserto. Então, Maria,

Lamentarás o amor que hoje pudera

Te conduzir a mim, bem como o kata

— Da salvação o pássaro ditoso —

Através das areias africanas

Guia o viajante lânguido à cisterna.

E por que enjeitas meu amor? Escuta:

Eu sou rei, minha fronte se levanta

Sobre as frontes de todos. Ó Maria,

Eu sei que és branca e eu negro, mas precisa

O dia unir-se à noite feia, escura,

Para criar as tardes e as auroras,

Mais belas do que a luz, mais do que as trevas!


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



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