Castro Alves - Os Escravos - 32 - Súplica




Castro Alves - Os Escravos - 32 - Súplica


La nègre marqué au signe de Dieu comme vous passera désormais du berceau à

la fosse, la nuit sur son âme, la nuít sur la figure.

PELLETAN


Senhor Deus, dá que a boca da inocência

Possa ao menos sorrir,

Como a flor da granada abrindo as pet'las

Da alvorada ao surgir.

Dá que um dedo de mãe aponte ao filho

O caminho dos céus,

E seus lábios derramem como pérolas

Dois nomes — filho e Deus.


Que a donzela não manche em leito impuro

A grinalda do amor.

Que a honra não se compre ao carniceiro

Que se chama senhor.

Dá que o brio não cortem como o cardo

Filho do coração.

Nem o chicote acorde o pobre escravo

A cada aspiração.


Insultam e desprezam da velhice

A coroa de cãs.

Ante os olhos do irmão em prostitutas

Transformam-se as irmãs.

A esposa é bela... Um dia o pobre escravo

Solitário acordou;

E o vício quebra e ri do nó perpétuo

Que a mão de Deus atou.


Do abismo em pego, de desonra em crime

Rola o mísero a sós.

Da lei sangrento o braço rasga as vísceras

Como o abutre feroz.

Vê!... A inocência, o amor, o brio, a honra,

E o velho no balcão.

Do berço à sepultura a infâmia escrita...

Senhor Deus! compaixão!...


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



 Castro Alves - Os Escravos - 32 - Súplica

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